sábado, 8 de março de 2008

Zé ordinário e seu dia complicado

Zé ordinário era um cara como eu ou como você: tinha dias bons, dias ruins--os que mais marcavam sua memória, infelizmente--e tentava obter alguma fórmula mágica onde os dois se neutralizavam oferecendo gotas de felicidade. Sabia que a vida que tinha era muito boa comparada a de outros, mas nasceu com torcicolo de ambição: vivia olhando o que poderia realizar a mais, e não o contrário.


Todos os dias ( ou tardes) em que acordava após uma noite de sonhos sem culpa, Zé ordinário tentava catalogá-los como presságios de algo grandioso. Se o bom futuro ou uma simples boa fase existem, ele pretendia com todas as forças memorizar o cheiro de um dia de mudança--para melhor, é claro. Assim sendo, se focou na primeira golfada de ar por toda fase de marasmo que passava.


Um belo dia, Zé ordinário pensou em um animal de estimação. Talvez a solidão tivesse o egoísmo que mataria sua capacidade de relacionamento. Por medo ou por impensada precaução, decidiu adotar um animal, uma companhia para os dias sem sonhos, afinal, a golfada de ar era relevante apenas nos dias de possíveis presságios. Seu projeto era ambicioso, muito maior do que um emprego ou um carro esportivo, mas a descoberta do aroma e todos os indícios de uma boa fase, de uma virada de maré. Um animal o ajudaria a manter o foco quando necessário, já que o ajudaria a relaxar nos dias desprovidos de devaneios atômicos.

Assim sendo, Zé pensou em cães, gatos e pássaros como companhias irritantes. Não seria possível a ele uma criação com o amor e carinho que estes animais necessitavam. Até mesmo o gato. Gatos são raros de dar problema ou fazer barulho excessivo, mas é inegável a raridade divina do objetivo de Zé. Ele não conseguiria mais viver se, no dia de sua grande virada, seu nariz fosse inundado pelas fragrâncias revoltantes de vômito ou fezes felinas. Ele acabaria matando o pobre animal, e isso ainda amaldiçoaria sua próxima vida, tornando o projeto uma promessa adiada por calculados 167 anos. Não. Ele conseguiria o aroma do dia decisivo a qualquer preço. O animal era necessário para mantê-lo no curso.


Assim sendo, cogitou os peixes e animais "semi-bibelô". São fáceis de cuidar. Peixes, algas, anêmonas, cavalos (marinhos, por favor!)--tudo muito silencioso. Calmo. Inodoro. Admirou as qualidades até que seu cerne se dobrou em direção a uma resposta lógica: Mas que coisa mais chata. Ficar sozinho sem nada pra ver é solidão. Ficar sozinho com diversas vidas acontecendo é isolamento. Que se danem os peixes--pensou. Era final de tarde e foi cozinhar os parentes menos afortunados de seus últimos candidatos a pet.

Quebrando ovos para acompanhar os peixes cogitou em um galo. Galos o ajudariam a acordar, não dando margem à falhas como preguiças matinais ou ressacas elásticas, capazes de alcançar até as 16 horas. Um galo o ajudaria no dia. Sorriu e quase proferiu um "achei", mas imediatamente se viu obrigado a abortar. Seu porta-talheres era justamente a carcaça de um rádio-relógio infeliz, que tentou acordá-lo para uma entrevista de emprego às 5:45. Cinco e quarenta e cinco da manhã é crime--pensou--eu só agi em legítima defesa--retrucou, ali, sozinho com as duas pescadas e os ovos, cadáveres da busca de Zé ordinário por um companheiro para seu grandioso projeto.


Mastigou quase que meia vez e foi interrompido pelo som de sua inépcia na cozinha. Cascas de ovo na comida. Que porcaria. Quando os bons dias chegarem, com certeza irá pagar alguém para exclusivamente limpar as cascas de seus ovos mexidos. Não. Uma cozinheira estaria fora de cogitação. Ele sabe cozinhar seus ovos como ninguém, apenas deseja deportar as casquinhas de ovo para longe de seu prato. Engoliu e olhou para a janela. Mais uma noite descoberto. Sem ninguém para acompanhá-l0. O que seria dele se amanhã fosse o dia da mudança? Ele cheiraria a nova fase com ânimo e não teria mais do que um travesseiro ou seu cabideiro para abraçar.

Desanimado, se viu em fracasso legítimo e irretratável. O dia se foi e agora ele dorme só. O animal que precisa para acompanhá-lo por todo processo não existe.

E, se ele não existe--concluiu--Deus não deve ter criado essa história toda de "vento da mudança" ou "fase boa", caso contrário, um animal seria o mais indicado para isso, mesmo em um segundo momento, para alguém de tirocínio raro como o dele." Até porcos sabem fazer algo além de se cagarem e comer metade do que cagam. Alguns farejam trufas, aquelas coisas que todos sabem ser caras mas nem cogitam sobre o sabor. "

Foi seu último pensamento antes de retirar os chinelos- de- dedo e permitir às meias uma retratação com sua forma original. Deitado, suspirou, não pelos meses de desemprego ou pelo tédio, mas por ter sido derrotado em sua jornada por animais.

Eis que teve o reflexo de sua torcicolo física, prima distante de sua personalidade dominadora e temerária ao mundo que não queria saber de Zé Ordinário nem por currículo. Olhou para cima e finalmente recebeu o recado que o faria o homem mais sábio do mundo, capaz de encarar as coisas com profunda sabedoria. Seu animal finalmente fora escolhido.

Era perfeito. Ele estaria com ele em todos os momentos e em todos os lugares, desde que deixasse um espaço para ser carregado. Era companheiro mesmo, daquele tipo que lembra os animais que seguem carrinheiros e maloqueiros em geral, não se importando em qual fase seu dono se encontra.

O martelo final veio quando se lembrou de que só são curiosamente encontrados como fêmeas. Ótimo. Cães fêmeas são mais calmos. Eis o animal que Zé Ordinário escolheu para sentir o perfume de dias melhores:







Se chama "esperança".






E dormiu. Seu rumo era brilhante. Agora só faltava saber o que esse bicho come, se e como é vacinado e por quanto tempo viverá ao seu lado...

quinta-feira, 6 de março de 2008

A vida, esse estacionamento de assuntos

Dada a minha (quase) que completa ausência da minha casa de idéias, foi impossível não lembrar por quê eu ando com um lapso de escrita.

Não é falta de inspiração ou assunto, quem me conhece pessoalmente sabe como consigo relativizar e teorizar até porque o cereal matinal amolece antes de acabarmos a pratada--é algo poderoso, uma força, uma bagunça interna que anda a me ocupar como folgados sentados nos assentos preferenciais do metrô.

Como é de praxe, toda pessoa meio emburrada com algo tende a falar muito. O que acontece com os tagarelas então? Eles falam mais ainda, correto?








Não, mané.





Tagarela fala porque confunde a frequência com que sorve oxigênio com o ritmo de suas palavras. Eu me incluo na categoria ( obrigado mãe pelos genes "gastadorius di salivius"). Quem fala pra cacete simplesmente passa a atender com todas as suas palavras um expectador/ interlocutor prioritário, vip de comanda zerada: sua consciência.


Como ando quase que um "auto-ajuda-man", decidi tentar colocar um pouco do meu lado destro ( leia o texto abaixo; se não entendeu, deixa de ser preguiçoso que leitura não é movida a gasolina...pelo menos até agora) em prática. Organizar as metas é importante. Porque, venhamos e convenhamos, até papel de bala ganha importância quando fica catalogado em uma pasta de envelopes plásticos. Com metas não seria diferente.


As coisas que ando fazendo em minha vida são agora de pouco interesse. Patrões que não são mais capazes de patrocinar minha ong "Azia-você ainda vai ter uma", sinceramente...querem mais é que eu me f....

Por isso eu deixo o recado com uma reflexão muito simples. Considere seus assuntos imensos ( ou pequenos) carros em um estacionamento. É simples estacionar um por vez. O problema aparece quando você precisa "mais ou menos" estacionar todos aos poucos. Muitas ignições. Muitas chances de ponto-morto. E claro: A desvantagem de elevar à décima potência a "zica" que todos os nossos velhinhos de calçada jogam ao ver alguém balizar.

Por isso mesmo, por ter poucos carros, por me pegar até mesmo dirigindo assuntos comparados ao ainda digno fusqueta, eu ando a investir no estacionamento subterrâneo. Meus assuntos não andam muito brilhantes. São assuntos com potencial, mas creio que ninguém vai até a Itália para ver o novo carro "mini-micro" para 1 passageiro, movido a óleo de cozinha e ovo podre, não é ?


Então espero que você continue a estacionar os seus assuntos nas vagas, com poucos amassados e aguarde eu retornar dos meus. Claro, sempre virei falar algo "semi-inútil" aqui. Sou André Zilar, afinal. Mas por enquanto é preciso deixar de sobreaviso que meu andar não é triste nem risonho, mas simples:




-S3.

"Sobe!" ( se Deus quiser!)

terça-feira, 4 de março de 2008

Lembrete


Como canhoto nato, sempre tive problemas com este mundo de destros. O problema é que isso não se limita à mão que utilizamos para as atividades corriqueiras, mas à forma de pensamento. Assim sendo, tive de encarar que, se os destros pouco sabem a respeito dos canhotos, o inverso é absolutamente inviável. Aprendi muito mais rápido o que era "esquerda" e "direita", como se fosse uma espécie de comunista manual-mirim.


Meu avô utilizou uma técnica muito boa comigo, amarrando por uns dias um lacinho em minha mão esquerda. Ok, ele era louco de pedra ( não por isso), mas pelo menos admirava o fato de eu ser canhoto. "ele será inteligente"--assim ele dizia--hoje penso que talvez seria melhor se ele me dissesse " ele é destro, será uma anta, mas ganhará dinheiro fácil".


Mas um canhoto é um ser resistente por natureza. É preciso aprender tudo pelo viés da adaptação. Sendo assim, sempre entendi que me lembrar da mão esquerda é entender que terei de ver o mundo dos destros e modificá-lo. Caso contrário, um canhoto não passa de um destro aleijado.


Hoje me encontro com uma espécie de lembrete diferente. Como desocupado nato, tenho procurado mudar o "de" de palavra, entrando em um curso sobre uma carreira que poderia ser o "equilíbrio entre o que o mundo quer que eu seja destro e o que eu sou". Além disso tenho tentado cultivar meu lado esquerdo do cérebro ( sim, suas antas, eu uso mais o lado direito por ser canhoto).


Logo, pensei naquilo que raramente fazia. Como jogar tênis ou praticar natação estavam fora de cogitação, decidi recentemente me testar ao pé de um fogão, como um bom "marido desempregado que vira o dono de casa". Não sou casado, mas gostei da imagem de um homem que não é desocupado--mas prendado.


Minha primeira empreitada me trouxe o lembrete com uma bela gota de óleo fervente: uma notável queimadura de segundo grau, na mão direita. Claro que me lembro como sempre é minha mão direita que sofre as pancadas, cortes, esmagamentos e , para inovar--queimaduras. Realmente é difícil para mim, ter de conviver com o lado direito.


Metaforicamente, eu hoje vejo com ironia como é engraçado tentar contradizer sua própria natureza. O lado direito é muito lindo, um lado de perfeição, de competição fria. É o lado de todos, é o lado do que "você deveria fazer, todo mundo faz".

Até onde um homem consegue viver sem seu lado direito? Não sei. Cheguei à conclusão que minhas excentricidades de conduta são reflexo nato do que é alguém que vive pelo lado esquerdo. O lado esquerdo depende de sorte para arranjar cia. em suas decisões. Todo mundo trabalha infeliz, ou pelo menos essa é a maioria. Todo mundo?

A equação do mundo destro, ao meu ver é :


Todo mundo= Maioria das pessoas X Conduta da maioria
______________________________

O que cada um acha que uma pessoa comum faria em uma situação




O problema é que nunca fui bom nem com matemática, muito menos com o que a maioria faz. É incrível. Mesmo em meus momentos de rendição ao modismo, sempre modifico alguma coisa. Se a roupa da moda fosse "camiseta azul" ( e eu adoro azul), eu teria o dom de , na última hora, amassá-la ...e bum, já era a equação do todo mundo.


Assim sendo, tenho de encontrar um equilíbrio. Ser canhoto manual é possível, mesmo com desastres à mesa, mas não dá para ser só canhoto de vida.

Um canhoto de vida vive pela equação do "comigo fica mais ou menos assim"...


Equação de vida canhota




O cara faz diferente= Conduta da maioria - Percepção do canhoto - 2. ( Adaptação + QPF*)
_______________________________________________
Amigos destros com paciência+ perdidos e insanos em geral



(QPF- Quociente Pessoal de "Foda-se"--Habilidade pessoal de tentar sem saber se vai dar certo por necessidade pessoal.)


Agora preciso equilibrar as duas coisas. Tenho metas a cumprir e começo a entender que, desta vez, terei de agir certo. Minha queimadura é feia, mas começo a achar que ela é só um pequeno lembrete, um lacinho na mão direita para me mostrar que, quando não se tem regra, a melhor coisa é agir sozinho, mas como qualquer um que precisa de mexer agiria, caso contrário, de canhoto eu passo para aleijado das duas mãos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O futuro, essa coisa perfeita para quebrar o tédio.

Já faz tempo que não me coloco aqui. Digo me colocar porque os simples textos sarcásticos são só um jeito de emanar pela internet minhas mais absurdas teorias e devaneios. Como alguns sabem, sempre tenho o que escrever, mas nem sempre me sinto a vontade para tal.

Assim sendo, como uma resposta divina, ao retornar do "corte de juba", recebo um presente do meu precioso sobrinho. Digo precioso porque seus olhos têm algo de muito especial. É um menino inteligente, que tenta sorver o mundo em colheradas, como se tudo fosse um sorvete apinhado de sabores. Como a vida artística é algo que inspira os que são mais hábeis e não se preocupar com o "aquilo com o que todos se preocupam", ele dá seus passos em direções variadas. Se eu desenho, ele também desenha. Se eu canto, ele também canta ( e meu sobrinho fez seu primeiro show aos 7 anos de idade, no natal. E fez questão de compor suas músicas. Porque ele foi contaminado pelo espírito daquele que olha, admira, observa uma vez mais e...segue em frente, sem medo de mostrar seu ponto de vista da Terra lotada de mesmices. Ele cantou suas músicas aos 7 anos. Alguém sabe o que é isso? Não é algo banal. Demanda coragem. Personalidade que não se encontra em qualquer babá australiana a cabo.

Não me perguntem como eu me senti, porque já começo a marejar os olhos só de lembrar). Se eu escrevo...sim, ele mostrou hoje que também é capaz de escrever.

Eis o primeiro texto de meu sobrinho, Giovani. Isto aos 7 anos, 15 minutos antes de ir para sua escolinha, como um recado "eu também gosto de escrever tio André!". Minha mãe me entregou. Se conseguir, vou "scanear" e colocar aqui, porque é muito merecido:


"O trovão entre as estrelas,
Mas você é muito maior,
Você é a lua,
E eu o sol,
Nesse sistema,
Por isso
Eu fiz essa canção.

Nas ruas dessa cidade,
Quando vejo você
Eu fico sem fim no meu coração--é todo por você
Nesse mundo eu sou seu. "

Giovani Almeida- 19 de janeiro de 2008.


Gente, se algum dia pensaram em comentar algum texto meu e desencanaram...pensem que uma criança com 7 anos fez isso. Ele sequer sabe escrever direito. ( eu corrigi os possíveis erros de português e os atropelos de pontuação, mas veja como é que ele já acha sem querer figuras como aliterações " O trovão entre as estrelas" e coisas como " Quando vejo você fico sem fim no meu coração")

COMENTEM. Porque eu não sou coruja, sou é curioso.

Agora, com 7 a

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Como se despedir.

Todo mundo sabe a importância de ser educado. Para isso, é preciso uma boa dose de cortesia, algum conhecimento prático e talvez um bocado de eufemismos. Mas é fato também que passamos boa parte da juventude preocupados com os inícios. Tudo na vida jovem é início e aos poucos precisamos encarar que o "oi" é super-valorizado perto do "tchau" "até logo " e o "adeus".

Eu me considero jovem demais para dar "adeus" para algumas coisas, mas como recentemente entrei nos 27 anos, eu começo a admitir que inegavelmente todos temos uma capacidade para os "adeus".

O "adeus" é dolorido porque todos gostamos de ter controle sobre as coisas. Pessoas expansivas como eu são desligadas, mas sempre estão "pairando" com sua atenção sobre muitos lugares e pessoas. Quando uma porta bate, não nos preocupamos, porque toda ação tem uma reação, e quanto mais forte algo se fecha, mais rápido há de se abrir. Dói demais ver uma porta fechada, seja ela no campo emotivo ou no profissional. Graças ao bom Deus, poucas portas familiares me foram fechadas até agora, e acho que há um senso de justiça nisso, dada minha relativa inépcia em me desligar por completo daqueles que me fazem mal. Mesmo que eu patrocine o combustível daquilo que me faz mal.

O ano chega ao fim, e eu sempre analiso aquilo que veio, que cresceu e aquilo que se vai. Não sei porque, penso em uma sina engraçada, onde o ano novo chega e não me vejo assentado. Se assentar é paz, é tranquilidade e estabilidade, mas é um "adeus" para uma série de possibilidades. Aves em um ninho podem ter segurança eterna, mas só Deus sabe como deve ser complicado enferrujar as asas e não poder sair de seu abrigo, mesmo se uma fagulha lançada pelo vento atear fogo na tão amada morada.

Não entendo de religião, mas dou um chute semi-calculado de que o budismo fala algo sobre o desprendimento. A ficcção de George Lucas brinca com isso ao criar os licensiados Jedi. É preciso se desprender das coisas para que elas sigam seu rumo natural. E isso significa tomar o seu próprio rumo natural. Assim sendo, acho que o "Adeus" pode ser uma força poderosa em nossa vida, mas ela demora para ser aperfeiçoada até ser usada com sinceridade.

Gente, "Adeus" é deixar alguém seguir pela luz divina. É permitir que todos os dados sejam rolados para ela daquele ponto em diante e não torcer nem a favor ou contra. A analogia que faço encontra êxito no futebol: quem abandona o futebol não sabe mais quem joga. Não sabe quem está ganhando. Não acompanha tabela. E não chora nem comemora em excesso com os resultados que lhe chegam aos ouvidos.

Preciso aprender isso. 2008 é um ano par. Tem quem diga que são mais tranquilos, acho que pela exatidão do par em si, que não pede nada para se equilibrar. Muito se pediu de mim em 2007 e eu aceitei ( não de bom grado) oferecer o que me apareceu. Engraçado é que tive de dar até mesmo os tais "Adeus", para uma boa parte de amigos e amores. Não sou bom nisso, nesse negócio de entregar os pontos. Sou ótimo em aceitar uma derrota com xingamentos e promessas de revanche, mas não sei como entregar os livros e fechar a banca para falência.

Assim sendo, gostaria de inverter o pensamento que todos têm sobre o ano novo. Todos são especialistas nos "ois" e introduções. O ano novo é a festa da renovação, mas eu digo que minha reflexão à beira da praia é que não existe muito espaço em nossa linha de existência. É preciso "descongestionar" a mente. O corpo. O coração. Só assim temos como receber com luxo e presteza o futuro que nos traz coisas boas e nos tornamos capazes de segurar aquilo que nos interessa.

Por isso mesmo, recomendo a você, leitor(a), que treine e pratique um pouco o "adeus". Dê "adeus" para o futuro de cabelos desbotados que não o interessa. E isso significa abandonar até mesmo aquilo ou aqueles que o abandonaram. Corte o fio de energia mental que o prende a essas coisas. Porque este tipo de energia emite uma fumaça de frustração muito ardilosa.

Antes de abraçar à luz dos fogos, abra os braços à sombra das águas que levam. Deixe isso acontecer. Escolha, embrulhe e coloque pensamentos e relações variadas para navegarem. Deixem elas chegarem a outros portos, como novidades para o ano novo alheio. Só assim você entra no rodízio e alguém te manda oportunidades e histórias novas, como bons livros que têm o privilégio de conhecer mais de um par de olhos ávidos.

Faça isso. Caso contrário, as águas da mudança param, os fogos da novidade chegam, evaporam o que deveria levar o que entulha sua mente e , invariavelmente, essa lama de "paturo" ou "fassado" vai manchar até a mais alva das roupas de reveillon.

Feliz ano novo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Festa

" Seu nascimento é motivo de comemoração. Por isso mesmo, te dou este jogo do mico. Olha, já fica para aniversário e natal--assim disse a madrinha. Os pais acompanharam a onda, e muito se lutou para tentar mostrar que se veio a terra não por bônus natalino. O tempo passa e ele guarda na memória a única festa de aniversário que teve na infância. Seis anos. E nunca mais. Aos dezoito tentou retomar a tradição. Poucos comparecem, um punhado. Um escândalo montado pelas primeiras intrigas sociais na vida de todos aqueles acabam com sua tentativa de existir no dia de seu nascimento. O primeiro porre de dar dó toma o lugar. Dois amigos o carregam. O estorvo fica bem retratado. A teimosia toma conta, o cenário foi modificado, uma cidade com muitos para serem convidados. Já não conta mais com a amizade, mas com a estatística. Alguém aparecerá. A pequena ambição de meia dúzia de convidados é compatível com o que ele pode pedir. Sem presentes. Sem ligações. Ele se engana. Júpiter não deve ser um bom planeta para seu signo--ele sofre um embaraço por nascer. Novamente. Quase duas horas sozinho na mesa. O garçom e o proprietário do restaurante perguntam se realmente ele chamou alguém. O sentimento já antigo e familiar em todos os seus espinhos toma conta do peito. Chorar não é mais opção para homem feito. Ou desfeito, quem saberá. Poucos e fiéis amizades aparecem, mescladas com mais dois ou três coitados que não sabiam ainda da chaga de suas festas de aniversário que são tudo, menos festas. O ano que vem será mais difícil. "Eles já perceberam como é". Sequer quis lembrar na época que tentava em outra data, achando que seu natalício era amaldiçoado pelo número 21. Pena, mas valeu a tentativa. Chega outro ano. Ele já tem orgulhos e mágoas de presentes passados. Um fantasma o assola. Pensou tenramente na idéia de admitir solitude e aproveitá-la em grande estilo, provavelmente em uma suíte de hotel, acompanhado de vinho, comida de primeira e uma mulher de aparência e preços tão proibitivos quanto o resto da conta. Pena. O mundo ainda não arranhou o suficiente a sua moral para levar o plano adiante. Ri. Foi convencido pelos outros a até mesmo ele negar seu próprio dia de felicidade. Esperemos.
Com sorte pingarão moedas de cumprimentos. Dói quando os primeiros a ligar são inimigos. Eles ligam. Talvez seja o espírito combativo. Isto afasta convidados. Mas pelo menos seleciona mais as pessoas. Até demais, será? São poucos dias. Poucas pessoas. Quem sabe, só mais alguns poucos anos pela frente?"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Quanto custa ter um nome

Há pouco tempo me mudei. Assim sendo, tive de me embrenhar por horas dentro de um cartório, matando as saudades que nunca tive do pagamento de taxas para conseguir veracidade sobre aquilo que os homens dizem no papel.

É curioso pensarmos que no cartório a palavra ainda vale alguma coisa. Ninguém se leva mais a sério (eu me incluo), mas a sociedade sempre teve mecanismos para fazer valer a palavra de alguém. Antes era o sobrenome. Depois tivemos uma semi-democratização, onde as pessoas podiam fazer valer sua palavra pela igreja. Os dois foram assassinados com nicknames de web e programas dominicais, sobrando o cartório. Assim sendo, o cartório é o lugar onde você pode pagar tudo. Do aluguel ao casamento. De certidões de óbito ao primeiro bem que você adquire, o seu nome.

Para muitos, carregar o seu nome pode ser nada mais do que abrigar seu RG na carteira do bolso traseiro, mas nossa designação neste mundo pode pesar muito até mesmo para calças de cifras proibitivas.

Nosso nome é como a água da vida social, vital para nossa subsistência. Sem ele nos tornamos um homo sapiens sem tacape, e é nisso que eu acredito. Só que um nome sem história também vale tanto quanto uma placa de trânsito ao contrário, ou dinheiro que não está mais vigente.

O nome é só o arcabolso que vai abrigar tudo que conseguirmos colocar dentro dele. Demora muito conseguir algo que preste, mais ainda retirar o que não ajuda a manter o brilho dele.

Ando pensando nisso constantemente. Não pelos outros, não por filosofia, mas porque é minha responsabilidade escrever com atos e palavras e minha biografia. Muitas vezes nos emocionamos ao ver um capítulo crítico de novela, porque isso é intimamente relacionado com a nossa própria vida. É preciso ter estômago para guinar sua história de vida. Isto acontece porque de forma harmoniosa, quando nos ferramos, principalmente no ambiente de trabalho, alguém se dá bem. E ninguém vai apoiá-lo a sacudir a poeira e esticar as rédeas, existentes nos modelos de 1, 2, 5, 10, 20, 50 e, raramente 100 reais.

Quem me conhece sabe que as grades, no sentido amplo da palavra, não me caem bem. Sou capaz de arrancar um braço para seguir meu caminho por livre opção, o que é um traço pouco admirável àqueles que adoram a idéia de um ser dependente. Minha resposta está dentro do que todos que não nos querem dizem: ninguém é insubstituível. É, ninguém é, porque só é insubstituível quando alguém realmente se importa e se congratula por ter cruzado o seu caminho.

É hora de pensar profundamente na sua vida. Com certeza existem opções pouco louváveis no início, mas é verdade que muitos atos de grandeza só foram possíveis porque foram praticados por gente capaz de descer dois degraus e se sujar na lama das opções que envolvem riscos, uma lama gelada que afasta os mais desprovidos de proteção espiritual.

A mudança me cutuca. E pode ser que ela venha para o bem, mesmo que me despeje problemas por um tempo. Analisando friamente, pode ser uma boa saída, uma economia para não perder os prováveis 50 reais que alguém um dia pagou para eu carregar letrinhas no campo principal do meu RG.