Antes de tudo havia o pai. E a mãe. E Deus disse que tudo era lindo. Se não era, aguardasse até o natal. Se não era, aguardasse sua madrinha ( a minha era mão-de-vaca para presentes). Se não era, espere. Sempre há o dinheiro do lanche.
Bem, eu não fui econômico com o lanche. Mas fui muito querido. Combinação que tornou minha infância gorda e bem-servida de brinquedos.
Mas aí Deus diz: crescerás.
Você começa a entender que largar os brinquedos é comprar problemas, até mesmo para conseguir se divertir. Nascem as primeiras traições, dos amigos. Depois, das primeiras mulheres, e você entende que traição não é algo que se limita ao ato de beijar ou fazer sexo com outra pessoa.
Problemas? Opa, se você é desocupado, o exército tem um lugar para você. Desse eu escapei.
Só que Deus enviou o arauto da destruição. Não, não é a sogra. Esta, meu caro, você demite quando assinar o bilhete azul do casamento. É a instituição do chefe.
Logo que pensei em escrever este texto lembrei daquele cretino no Fantástico que dá dicas sobre o mercado de trabalho. Ele começou bem-intencionado, mas hoje dá para ver que é um quadro da Glorinha Kalil de terno e com os modismos e "diquinhas" abobalhadas que todos querem ver depois de se empanturrarem de frango assado, pizza ou macarronada no domingo.
Foda-se o idiota. Ninguém nunca pensou que aquele cretino fica desempregado se todos pararem de assisti-lo? Seria irônico patrocinar isso ao "guru do rh".
O chefe. A criatura que Deus enviou com poderes de salário e imunidade chiliquenta.
Meu primeiro chilique foi na Procuradoria. Minha então chefe, teve uma síncope e me humilhou gritando coisas do tipo " até alguém do primário consegue isso". Senti a inveja do porteiro subindo pela escada que dava até a sala.
Ali eu entendi como todo mundo tem um lado místico e circense. Nascemos para engolir sapos.
Olha, até aí, pouco nos diferimos de quem engole papelotes de cocaína. A diferença é que eles são examinados por pastores alemães, e não chefes. Ou seja: criaturas muito mais educadas e cientes de sua posição na escala evolutiva.
Quem tem chefe sabe o que é ver que seu trabalho está feito, tudo está certo e ...ainda assim...ter de fingir "ser super-produtivo". O chefe é o homem que manda relatórios. O chefe atende telefone com cara de George Clooney. E o chefe também adora flertar e fazer burrices para mostrar como você é idiota de não ver que ele pode fazer merda...ao passo que você fará merda, mesmo que não faça.
Já tive chefe "espertalhão", obra da Disney-corporativa. Um tipo de chefe que espera na fila de roteiros para filmes da Pixar. Não percam, nos cinemas. Ele ri , e você chora. É mais ou menos assim.
Deste eu me despedi, com uma longa gargalhada. Acho que o Pateta faria isso, na minha situação.
Passei um tempo de minha vida sem chefe. E cheguei à conclusão que eles são como mulheres. Ruim sem eles....você entendeu.
Hoje eu tenho um chefe do tipo Jack&Hyde. Diversão garantida. Ele começa o dia com um smile e passa das 11:00 às 15:00 mostrando como Lúcifer pode ter um Macintosh.
Não sei bem ao certo o que faz os chefes serem assim. Os chefes têm preocupações, até aí, minha labrador também deve ter. Ela sempre fica sem água quando bebe estabanada.
Minha teoria é que para ser chefe você precisa colocar um pouco o espírito do "menino da bola". Você tem de sentir aquela liberdade de cagar com a janela escancarada. E ainda cobrar aplausos da vizinha de 70 anos em frente.
Um dia acho que muitos serão chefes. E aí é hora de pensar em dobrar o número de cuecas. É hora de começar a ler sobre TPM, porque chefe pode dar piti e todos abaixam a cabeça, como se ele estivesse recitando as memórias póstumas de Brás Cubas. Porque chefe pode cuspir na cara e pedir abraço. Pena que labradores não trabalhem comigo. Eles não se molhariam muito na hora do cuspe.
Chefe é um ser humano que pode trocar economia cerebral pela capacidade de pagar, admitir e despedir. É um ser grandioso, por isso que sempre tem gente pendurada nele. E é um ser do caralho mesmo, porque volta e meia alguém na empresa tem a cara de quem foi comido e não gostou.
Não me entenda mal, leitor(a). Eu hoje em dia adoro meu chefe. Porque ele admite se possuído por algo que nenhum padre armado de crucifixos vai exorcizar. Ele pelo menos mostra que sente o cheiro das cagadas que comete. E isso o torna humano, quase.
Porque lembre-se: Seu salário depende dele. E ninguém que decide se você come ou não, se você dorme ou não, se você pode ter esperança ou não, é humano.
É chefe. Agora feche esta janela e vá fazer aquilo que alguém te disse...=D
terça-feira, 16 de outubro de 2007
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
"Não-comprido, nem muito longo"
Me disseram que uma boa idéia para que outras pessoas me conheçam e se tornem fãs dos textos é redigir coisas mais curtas.
Vamos lá:
1) Você bebe? Ótimo, já é meio caminho andado.
Sou uma pessoa que, ou você "vira" ou você engasga.
2) Blog para mim não é agenda. Foda-se se eu dormi, comi, fodi ou bebi. Se eu quisesse um diário comprava um livrinho da Hello Kitty. Isto não vai acontecer.
3) Seja bem-vindo. Eu sou humano e admito: odeio emos. Sou mais humano e admito: odeio autismo virtual, com expressões 'linduxas".
4) Eu....melhor parar. Meu assistente de marketing já diria que me alonguei demais por aqui.
fui.
Vamos lá:
1) Você bebe? Ótimo, já é meio caminho andado.
Sou uma pessoa que, ou você "vira" ou você engasga.
2) Blog para mim não é agenda. Foda-se se eu dormi, comi, fodi ou bebi. Se eu quisesse um diário comprava um livrinho da Hello Kitty. Isto não vai acontecer.
3) Seja bem-vindo. Eu sou humano e admito: odeio emos. Sou mais humano e admito: odeio autismo virtual, com expressões 'linduxas".
4) Eu....melhor parar. Meu assistente de marketing já diria que me alonguei demais por aqui.
fui.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
O salto
Fique de pé.
É o primeiro passo. Parece simples, mas ficar de pé é uma expressão muito ampla. Engrandeça tudo que você é até chegar ao limite da verdade. Não exceda o limite. Um bom salto depende de cálculo, seja você bom ou não com os números.
Na vida damos vários saltos ( ou não). É preciso saltar, caso contrário, a repescagem será a sua rotina. E os prêmios maiores só chegam às mãos trêmulas de quem saltou. Mãos calmas e condescendentes não saem do chão. Escolha: segurança ou possibilidades?
Ficar de pé é dar um salto, e este é dado bem cedo. Aprender a nadar, é um salto ( na água).
O primeiro beijo, meus caros, é um salto dado para a frente, que esperamos ser realizado com maestria. Mas não tem problema, este é um salto para se praticar a vida inteira. ;)
As meninas saltam também. Além de tudo, precisam saltar mais alto, daí os mules e tamanquinhos da vida. Sofrem com os acrobatas machistas, daí é preciso saltar alto o suficiente para cravar os calcanhares neste tipo de ego-zepelin.
Depois de um tempo você ganha liberdade--sai do colégio. É o salto mais comemorado para alguns. É hora de começar a vida real, onde o salto em geral é do tipo mortal duplo e só podemos cair 'cravados" ou nos machucarmos.
Hoje eu vivo o salto do trabalho. Vivo o salto de quem quer começar a saltar sem a rede de segurança de meu pai, que já viu circos demais neste sentido. Meu pai conseguiu sucesso relativo, mas admite ter saltado pouco. Devem ser as pernas em arco, somadas ao caráter tradicionalista.
Tenho saltos que pratico e só ensaio. Mas agora preciso do salto do trabalho. E este dá medo.
Muitos outros saltadores de minha geração já estão fazendo turnês de sucesso, e estou concorrendo com saltadores mais novos. Não os subestime: Muitos sabem a flexibilidade de paciência que eles têm e eu já tenho enferrujada, como articulações que já sinalizam não serem "zero km".
O salto do trabalho é complicado. Muitas vezes somos exímios em um tipo de salto e tudo que o mestre de cerimônias da ocasião quer é só um "salte batendo palmas'. O inverso é menos frustrante. É bom ser cogitado para saltar de forma olímpica enquanto ainda nos alongamos na academia.
Agora me vejo na minha primeira plataforma. É mais ou menos como me senti na primeira vez em que saltei para cima de um palco e cantei. Só que não dá para fechar os olhos e esperar um microfone falar tudo que eu diminuí com a tensão. Agora é tudo ou nada.
Menos de 48 passos ou horas...
E eu te digo uma coisa:
Estou de pé, amigos. Minhas mãos suam. Mas descobri um fator competitivo...
O otimismo e a confiança, neste tipo de salto, são extremamente AERODINÂMICOS.
Rufem os tambores. Pipocas e refrescos com o rapaz na arquibancada, pessoal.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Recapitulando...(André Zilar- bônus-fevereiro 2007)
Recapitulando...(André Zilar- bônus-fevereiro 2007)
Provavelmente este é o texto mais egoísta que já fiz. Grandes chances de eu tontear quem lê, ele praticamente é meu cofre em todos os caracteres como senha. Só quem sabe muito sobre mim irá entender.Eu não admito. Eu não aprendo. Sou o mesmo. É o inferno de adorar os saltos dessa vida. Acho que minha primeira paixão foi a gravidade, a segunda o chão. “Me sirva um tombo, sem gelo”.
Odeio chineses, desejos e provérbios. Damm! Não ganho um salário, acho que parcelarei a minha boca. Pouco provável, mas tentarei pagá-la pouco a pouco. Alguém me dê um crediário de promessas.Napoleão estava certo sobre as amizades. Pior ainda, aquele que colocou os sentimentos extremos para passearem sadisticamente noite afora. É preciso dormir, mesmo que a carne se divida em dois: um “Z” para cada lado, assim tudo descansa junto.
Lascívia é a escravidão da carne sobre a mente, estimulada pela alma que ri dos planos que fazemos para a vida. Já me vi como um fusquinha de alma, mera condução pra um destino certo, como o passageiro de ônibus que não faz idéia do percurso da linha que pegou.
As palavras banais das poesias são banais e mal-faladas porque todos as admiramos. É como a toalha de banho ou os talheres, que quase todos têm e quase ninguém dá valor. As cartas são idiotas mesmo, Fernando-humano. Mas que elas são reais em sua idiotice são.Superstições são muros de papelão que carregamos para nos proteger do mundo exterior. Elas funcionam muito bem se não colocadas à prova. Tenho muitas que são derrubadas à distância, é fato.O passado é uma coisa fascinante. Pior do que cliente mal-atendido, tende a reclamar o que nós pensamos no último segundo como uma dívida sem quitação.
Espero um dia voltar à minha forma silenciosa, escamosa, fria e preocupada em apenas estar em seu elemento. Enquanto não vivo na água, continuo assim, fogaréu ao vento.
Recapitulando, é preciso admitir que tenho medo de fazer nexo. Quando fazemos sentido, simplesmente somos desprotegidos do que queremos dizer para sermos acorrentados ao que as pessoas querem entender.
Provavelmente este é o texto mais egoísta que já fiz. Grandes chances de eu tontear quem lê, ele praticamente é meu cofre em todos os caracteres como senha. Só quem sabe muito sobre mim irá entender.Eu não admito. Eu não aprendo. Sou o mesmo. É o inferno de adorar os saltos dessa vida. Acho que minha primeira paixão foi a gravidade, a segunda o chão. “Me sirva um tombo, sem gelo”.
Odeio chineses, desejos e provérbios. Damm! Não ganho um salário, acho que parcelarei a minha boca. Pouco provável, mas tentarei pagá-la pouco a pouco. Alguém me dê um crediário de promessas.Napoleão estava certo sobre as amizades. Pior ainda, aquele que colocou os sentimentos extremos para passearem sadisticamente noite afora. É preciso dormir, mesmo que a carne se divida em dois: um “Z” para cada lado, assim tudo descansa junto.
Lascívia é a escravidão da carne sobre a mente, estimulada pela alma que ri dos planos que fazemos para a vida. Já me vi como um fusquinha de alma, mera condução pra um destino certo, como o passageiro de ônibus que não faz idéia do percurso da linha que pegou.
As palavras banais das poesias são banais e mal-faladas porque todos as admiramos. É como a toalha de banho ou os talheres, que quase todos têm e quase ninguém dá valor. As cartas são idiotas mesmo, Fernando-humano. Mas que elas são reais em sua idiotice são.Superstições são muros de papelão que carregamos para nos proteger do mundo exterior. Elas funcionam muito bem se não colocadas à prova. Tenho muitas que são derrubadas à distância, é fato.O passado é uma coisa fascinante. Pior do que cliente mal-atendido, tende a reclamar o que nós pensamos no último segundo como uma dívida sem quitação.
Espero um dia voltar à minha forma silenciosa, escamosa, fria e preocupada em apenas estar em seu elemento. Enquanto não vivo na água, continuo assim, fogaréu ao vento.
Recapitulando, é preciso admitir que tenho medo de fazer nexo. Quando fazemos sentido, simplesmente somos desprotegidos do que queremos dizer para sermos acorrentados ao que as pessoas querem entender.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
O comercial da vida
Depois de muito tempo, consegui me pegar um domingo a ver TV, acariciar minha cachorrinha enquanto consumia débilmente carboidratos familiares. O filho do meio retornou para apreciar a pizza de seu pai. Que bom.
Peguei um comercial que me chamou a atenção: Ford Fusion. Como sou redator e me enveredo há um ano por esta estrada de linhas editáveis do word, prestei atenção ao conceito da campanha: você fez por merecer.
Claro, a frase é do caralho para um carro que não custa nem de perto o que os "milzinhos" custam. Achei interessante cruzar aquele conceito com a informação que tinha sobre o carro, que foi concebido no México. Um país que confirma a ironia repetida em nosso país.
Será mesmo que quem faz por merecer recebe? Claro que não.
Na mesma viagem, após dois pedaços de carinho culinário paterno, pensei:
E se alguém tivesse de vender a vida. Isso mesmo, a vida. Imagine pessoas sendo prospectadas para encarnar na Terra. Está aí um trabalho complicado.
O primeiro problema seria vender algo que não tem resultados garantidos. Acho que o resolveríamos com as idéias de propaganda para operadoras de telefonia--todas são uma merda e você sabe que compra algo que PODE dar mais ou menos certo.
Depois disso, teríamos de convencer nossos consumidores em potencial a adquirir um bem que tem duração ( até então) indeterminada. Alguns pagariam para encarnar e poderiam rodar logo no primeiro mês. ( quantos bebês morrem?)
Para resolver algo assim, só um belo comercial da FIAT. (risos) Quem compra pode se ver enputecido com o novo bem em menos de 1 mês, não?
Ok. Eles estão quase convencidos a descer das nuvens ou campos verdejantes ( como a Globo costumeiramente retrata o céu) e se mandar.
Mas tem outro problema. Putz. Mais um: Depois de concordar, ninguém sabe como e quando vai chegar nessa tal de vida. Destino incerto? Por favor senhor, entre no nosso site www.voegol.com.br ou ligue no 0800. Não é uma solução, mas se for o caso podemos enrolá-los até alguém dizer que tudo anda travado por culpa de São Pedro, que não deixa ninguém subir ou descer.
Está aí um case de sucesso. Mas como podemos garantir que nossos consumidores ficarão satisfeitos com a vida? Ela não tem hora pra começar, nem para terminar e muito menos se sabe em que condições você irá iniciar sua jornada. Aliás, como é que se explica que cada um terá um resultado aleatório?
Como eles podem acreditar em algum tipo de justiça neste critério?
Hum...se o sexo ou esporte fossem permitidos,poderíamos colocar um belo comercial de cerveja ou anunciar um jogaço do campeonato inter-santos. Mas não rola.
Bem, eis que omitimos isso com um RP ( Judas?) e aí começou o embarque.
De repente, alguém vai e reclama, na última hora. Até que ele se encontra com uma galera que já viveu e está subindo de volta. O fulano decide se sentar em uma nuvem e mandou descer três copos de água benta, sem gelo.
Perguntou :
-- Meu, eu acho que é uma puta roubada. Mas todo mundo está abraçando esta idéia...vocês que já usaram e abusaram da vida....ela foi boa?
Alguns disseram que sim. Outros rebateram peremptoriamente atestando favorecimento inicial. Até que o fulano indaga:
Mas se tudo é uma zona e nós temos que viver, devemos recorrer ao responsável deste produto, não?
A resposta foi sábia:
-- Vou te dizer uma coisa que vale pra você agora, aqui, no céu e lá embaixo:
Não dá pra fugir, amigão. Tá na mão de Deus.
...
Opa! A pizza acabou. Até a próxima viagem!
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Da cama ao monitor.
Sete e quinze. Não. Sete e quarenta e cinco. Mais cinco minutos. Porra de despertador digital. Destruí-lo é acabar com minha agenda telefônica. Por isso, sou refém deste arauto sonoro da Sony-ericsson. Foda-se.
Oito e vinte e dois. Ok, melhor levantar. Vou tirar os pés. Até aviões se preparam com calma para decolar ou aterrisar. Jamais saí mais de 10 cm do chão, mas vou levar a sério a comparação.
Oito e quarenta. Levante-se. Ninguém vai vê-lo na multidão. Descarte o banho. Descarte a escova de dentes, sua prima pobre o aguarda no destino para uma escovação tardia.
Elevador. Porteiro. "Opa"-"E aí"- conversei com ele, o suficiente. O rio da Dona Veridiana está bom. Só 3 esbarrões. Endureço o braço. O mau-humor vira uma ombrada em um nordestino. Nada contra, mas a esta hora quero que uma bomba H caia em sua terra seca e fétida. Me desculpe, sou humano.
Metrô. Corra. Sentido Barra Funda. As pessoas estão para sair, só um lance de escadas. Ok. Consegui. Abro meu amigão. César vai contar como a vida pode ser grandiosa com sangue. O suor moderno não dá nem de longe um relance do que leio.
Estação Presidente Altino. Todos descem. Um baiano entra antes de todos saírem. A visão de 14 tiros naquela remela social me vêm à mente. Ótimo, não tenho uma arma. Minha vida segue, a morte dele também, lenta e miseravelmente remunerada.
Aguardar o trem. São nove e alguma coisa. Meu atraso começa dentro do trem. Um agricultor bêbado pergunta sobre seu corte de cabelo aos pobres coitados que cruzaram seu olhar com o dele, trincado como o vidro dos vagões mais desafortunados.
Jurubatuba. Um trem mais digno. Música clássica desligada hoje. Ar condicionado também. O tempo paulistano é jazz tocado em graus centígrados. O casaco e a camiseta se sentem inúteis. Mas o fedor está lá. Sempre há uma pessoa que pulou o banho, como eu, mas há 3 dias. Assim parece ser.
Uma bela mulher no vagão. Não bela, factível. Pés bonitos. Eu olho, ela se encolhe. Não, amiga, não terei uma ereção matinal no trem. Mas seus pés são bonitos, não muito...mas é nisso que me fixarei, caso contrário restará o maldito do bêbado para me divertir.
Pilhas. Rádio, testado na hora, pessoal. "Tráid", chiclete macio. O serviço de bordo de quem se fode começa. Fudidos servindo fudidos.
O cego da vez entra. Ele martela a miséria e sua posição escrota com a bengala. A legenda é clara, até mesmo para quem pode ver e não quer: "Pam! Quero dinheiro! Pam! PAm! Me dá alguma coisa, seu bando de malditos! PAm! Sim, eu faço isso há 3 anos e me acomodei por aqui. Pam! Não, não me importo!" O truque deficiente-circense rende 3 moedas com alguém que entrou para a turma do trem espanhol e ainda não sabia como um cego ganha mais que eu e metade do trem, só batendo a porra da bengala.
Estação Vila Olímpia. Há esperança? Não sei. Mas a escada rolante me coloca um degrau abaixo de uma bela morena. Seu rosto é desconhecido. Sorvo meu dízimo. Um cheiro doce, perfume matinal. Incrível. Cotoveladas, aperto, fedor, pilhas, rádio e bengalas capitalistas me levam a três inspiradas. Ótimo. O dia pode acabar bem, um desconhecido, como essa mulher que para mim parece ser útil apenas para que meu nariz lembre de que coabita o mesmo corpo de partes mais utilizadas para me dar prazer.
Um cigarro. Antepenúltimo. Está quente e frio. Andar. Calçadas arrebentadas se empertigam para receber os sapatos sociais e escarpins de gente que no geral ganha menos do que parece.
O caminho até a agência é invisível. Pensei em algo. Mas acho que não era relevante. Os dois que chegaram antes de mim, no horário, fumam.
Eu subo. E a porta está trancada. É, não deveria ter saído tão cedo da...escada rolante, é claro.
Oito e vinte e dois. Ok, melhor levantar. Vou tirar os pés. Até aviões se preparam com calma para decolar ou aterrisar. Jamais saí mais de 10 cm do chão, mas vou levar a sério a comparação.
Oito e quarenta. Levante-se. Ninguém vai vê-lo na multidão. Descarte o banho. Descarte a escova de dentes, sua prima pobre o aguarda no destino para uma escovação tardia.
Elevador. Porteiro. "Opa"-"E aí"- conversei com ele, o suficiente. O rio da Dona Veridiana está bom. Só 3 esbarrões. Endureço o braço. O mau-humor vira uma ombrada em um nordestino. Nada contra, mas a esta hora quero que uma bomba H caia em sua terra seca e fétida. Me desculpe, sou humano.
Metrô. Corra. Sentido Barra Funda. As pessoas estão para sair, só um lance de escadas. Ok. Consegui. Abro meu amigão. César vai contar como a vida pode ser grandiosa com sangue. O suor moderno não dá nem de longe um relance do que leio.
Estação Presidente Altino. Todos descem. Um baiano entra antes de todos saírem. A visão de 14 tiros naquela remela social me vêm à mente. Ótimo, não tenho uma arma. Minha vida segue, a morte dele também, lenta e miseravelmente remunerada.
Aguardar o trem. São nove e alguma coisa. Meu atraso começa dentro do trem. Um agricultor bêbado pergunta sobre seu corte de cabelo aos pobres coitados que cruzaram seu olhar com o dele, trincado como o vidro dos vagões mais desafortunados.
Jurubatuba. Um trem mais digno. Música clássica desligada hoje. Ar condicionado também. O tempo paulistano é jazz tocado em graus centígrados. O casaco e a camiseta se sentem inúteis. Mas o fedor está lá. Sempre há uma pessoa que pulou o banho, como eu, mas há 3 dias. Assim parece ser.
Uma bela mulher no vagão. Não bela, factível. Pés bonitos. Eu olho, ela se encolhe. Não, amiga, não terei uma ereção matinal no trem. Mas seus pés são bonitos, não muito...mas é nisso que me fixarei, caso contrário restará o maldito do bêbado para me divertir.
Pilhas. Rádio, testado na hora, pessoal. "Tráid", chiclete macio. O serviço de bordo de quem se fode começa. Fudidos servindo fudidos.
O cego da vez entra. Ele martela a miséria e sua posição escrota com a bengala. A legenda é clara, até mesmo para quem pode ver e não quer: "Pam! Quero dinheiro! Pam! PAm! Me dá alguma coisa, seu bando de malditos! PAm! Sim, eu faço isso há 3 anos e me acomodei por aqui. Pam! Não, não me importo!" O truque deficiente-circense rende 3 moedas com alguém que entrou para a turma do trem espanhol e ainda não sabia como um cego ganha mais que eu e metade do trem, só batendo a porra da bengala.
Estação Vila Olímpia. Há esperança? Não sei. Mas a escada rolante me coloca um degrau abaixo de uma bela morena. Seu rosto é desconhecido. Sorvo meu dízimo. Um cheiro doce, perfume matinal. Incrível. Cotoveladas, aperto, fedor, pilhas, rádio e bengalas capitalistas me levam a três inspiradas. Ótimo. O dia pode acabar bem, um desconhecido, como essa mulher que para mim parece ser útil apenas para que meu nariz lembre de que coabita o mesmo corpo de partes mais utilizadas para me dar prazer.
Um cigarro. Antepenúltimo. Está quente e frio. Andar. Calçadas arrebentadas se empertigam para receber os sapatos sociais e escarpins de gente que no geral ganha menos do que parece.
O caminho até a agência é invisível. Pensei em algo. Mas acho que não era relevante. Os dois que chegaram antes de mim, no horário, fumam.
Eu subo. E a porta está trancada. É, não deveria ter saído tão cedo da...escada rolante, é claro.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Guarda-chuva
Guarda-chuva( André Zilar)
Outro dia desses, nos meus momentos de introspecção, andando pela Paulista--como tenho feito nestes últimos meses, percebi que as pessoas esbarram demais. E estes sacolejões vão minando o pouco bom-humor que habita a alma de cada um que acorda entre as 6:00 e 7:00. Daí em diante virei um estudioso no assunto "sacolejões & esbarrões". Enfim, me auto-denominei esbarradologista.
Assim sendo, encontrei um sentido na frequência e intensidade da pressa das pessoas que encontra sua dose cinética nos incólumes passantes. Seu traje auxilia um pouco na diminuição dos trancos, barrancos e engravatados da paulistéia envaidecida. De calça jeans e camiseta você é relativamente importunado, mas não o suficiente para criar teorias tão profundas como a deste esbarradologista aqui.
De terno e gravata, qualquer um é invulnerável, pelo menos ao batalhão de trabalhadores irrefreáveis na sua trajetória com os ombros desocupados e pecadores daqueles que se dão ao luxo de meramente apreciar a basáltica arquitetura da avenida, que mais parece um rio de gente. Agora, se estiveres trajado como um assalariado mínimo, de bermudas, chinelos e camiseta, não importa quem você é--do Popó ao Papa, você será literalmente atropelado, afogado neste mar de gente agendada.O que aconteceu de curioso nesta equação, criação máxima da minha carreira de esbarradologista, é uma nova variável.É dela que quero falar. Anote o segredo e não conte a ninguém.
Estamos em março, mês esquisito em São Paulo, onde uma hora chove e na outra o sol vem rachando e clamando seu reinado no feudo de concreto. Assim sendo, não é possível saber que horas vai chover ou simplesmente parar. Me desculpem os bons paulistanos informados, que compram as oraculares previsões metereológicas. Se vocês crêem em ciência, eu creio em signos, saibam bem disso e fiquem nos seus cantos corporativos. "Cada um é cada um e deixe o cada um dos outros"-- é como Daniel, meu amigo de Santos diz.
No meio desta imprevisibilidade sem pé nem cabeça, decidi comprar um guarda-chuva. Não me dou com o antiquíssimo aparelho, há uma incompatibilidade de gênios entre ele, a geografia e minha memória, mas vá lá: " me dê um, vai". Por dez reais. Dali em diante, meu caro leitor, a vida deste amassado, esbarrado e atropelado ser humano mudou na Avenida Paulista.
Percebi que eu não tinha um mero guarda-chuva. Como não chovia, só cabia a mim carregá-lo, até que Deus, nos trâmites da naturalidade me pôs a andar e carregar o equipamento como se fosse uma bengala não utilizada. Melhor: um cajado. Então se imagine como Moisés, na eclesiástica obra. Eu abria um mar, muito mais revolto e rico do que o de água e sal: erao mar de gente da Paulista.Andando vitorioso, acreditei que tinha achado minha arma, meu nobre artefato em nome da minha existência espacial no trânsito não multado dos pedestres paulistanos. Vi que meu equipamento não era algo raro de se encontrar. Como disse, era época de roda da fortuna com as condições climáticas, e nada melhor do que o incerto para que os que são menos assalariados mínimos ( como fui concebido pela aparência). Todo ambulante ou imóvel passou a vender guarda-chuvas a tudo e todos que tivesse uma cabeça para molhar.Bem, e o que há de mais curioso neste fato? Ah, obviamente você deve se perguntar. A resposta você conhece, e se fores paulistano mais do que tudo:chuva.Com a chuva, só posso lamentar o fim de minha breve nobreza como passante. Todos passaram a abrir seus guarda-chuvas, outros a comprar e então me deparei com o segundo momento mais frustrante da minha carreira como esbarradologista. Agora guarda-chuvas se esbarravam, e entendi que na chuva tudo em São Paulo piora--até o trânsito de...guarda-chuvas!
Amigo, a Paulista parecia o campo de batalha de uma cruzada medieval, provavelmente elencando os sangrentos Templários, pois cada um se defendia como podia. A proteção contra o líquido da vida se tornou uma arma branca. E assim andar passou a ser uma atividade correlata à esgrima. Que tristeza, logo eu que nem pratico o esporte mais básico que é correr, me vejo no meio do campeonato não-declarado de esgrima com guarda-chuvas.Percebi que nesta analogia cada um se defendia com o que tinha. Mulheres mais delicadas com suas armas curtas, pequenas mas de espigões afiados, enquanto engravatados ( os pretores da era guarda-chuviana) abatiam os incaltos com seus poderosos guarda-chuvas negros, amplos e rombudos, tudo do alto da sua impermeável supremacia. O que fiz é meio óbvio, tentei repousar meus olhos na lei, mas ali percebi que estes são seres inexistentes no mundo dos cabos em jota. Eles apenas tomam o lugar de platéia, uma vez que não utilizam o aparato. As crianças, como em qualquer guerra, se agarravam às saias de suas nobres e precisas ( com as pontas dos guarda-chuvas) mães. Animais nos olhavam com terror. Somos estranhos mesmo, não?
Outro dia desses, nos meus momentos de introspecção, andando pela Paulista--como tenho feito nestes últimos meses, percebi que as pessoas esbarram demais. E estes sacolejões vão minando o pouco bom-humor que habita a alma de cada um que acorda entre as 6:00 e 7:00. Daí em diante virei um estudioso no assunto "sacolejões & esbarrões". Enfim, me auto-denominei esbarradologista.
Assim sendo, encontrei um sentido na frequência e intensidade da pressa das pessoas que encontra sua dose cinética nos incólumes passantes. Seu traje auxilia um pouco na diminuição dos trancos, barrancos e engravatados da paulistéia envaidecida. De calça jeans e camiseta você é relativamente importunado, mas não o suficiente para criar teorias tão profundas como a deste esbarradologista aqui.
De terno e gravata, qualquer um é invulnerável, pelo menos ao batalhão de trabalhadores irrefreáveis na sua trajetória com os ombros desocupados e pecadores daqueles que se dão ao luxo de meramente apreciar a basáltica arquitetura da avenida, que mais parece um rio de gente. Agora, se estiveres trajado como um assalariado mínimo, de bermudas, chinelos e camiseta, não importa quem você é--do Popó ao Papa, você será literalmente atropelado, afogado neste mar de gente agendada.O que aconteceu de curioso nesta equação, criação máxima da minha carreira de esbarradologista, é uma nova variável.É dela que quero falar. Anote o segredo e não conte a ninguém.
Estamos em março, mês esquisito em São Paulo, onde uma hora chove e na outra o sol vem rachando e clamando seu reinado no feudo de concreto. Assim sendo, não é possível saber que horas vai chover ou simplesmente parar. Me desculpem os bons paulistanos informados, que compram as oraculares previsões metereológicas. Se vocês crêem em ciência, eu creio em signos, saibam bem disso e fiquem nos seus cantos corporativos. "Cada um é cada um e deixe o cada um dos outros"-- é como Daniel, meu amigo de Santos diz.
No meio desta imprevisibilidade sem pé nem cabeça, decidi comprar um guarda-chuva. Não me dou com o antiquíssimo aparelho, há uma incompatibilidade de gênios entre ele, a geografia e minha memória, mas vá lá: " me dê um, vai". Por dez reais. Dali em diante, meu caro leitor, a vida deste amassado, esbarrado e atropelado ser humano mudou na Avenida Paulista.
Percebi que eu não tinha um mero guarda-chuva. Como não chovia, só cabia a mim carregá-lo, até que Deus, nos trâmites da naturalidade me pôs a andar e carregar o equipamento como se fosse uma bengala não utilizada. Melhor: um cajado. Então se imagine como Moisés, na eclesiástica obra. Eu abria um mar, muito mais revolto e rico do que o de água e sal: erao mar de gente da Paulista.Andando vitorioso, acreditei que tinha achado minha arma, meu nobre artefato em nome da minha existência espacial no trânsito não multado dos pedestres paulistanos. Vi que meu equipamento não era algo raro de se encontrar. Como disse, era época de roda da fortuna com as condições climáticas, e nada melhor do que o incerto para que os que são menos assalariados mínimos ( como fui concebido pela aparência). Todo ambulante ou imóvel passou a vender guarda-chuvas a tudo e todos que tivesse uma cabeça para molhar.Bem, e o que há de mais curioso neste fato? Ah, obviamente você deve se perguntar. A resposta você conhece, e se fores paulistano mais do que tudo:chuva.Com a chuva, só posso lamentar o fim de minha breve nobreza como passante. Todos passaram a abrir seus guarda-chuvas, outros a comprar e então me deparei com o segundo momento mais frustrante da minha carreira como esbarradologista. Agora guarda-chuvas se esbarravam, e entendi que na chuva tudo em São Paulo piora--até o trânsito de...guarda-chuvas!
Amigo, a Paulista parecia o campo de batalha de uma cruzada medieval, provavelmente elencando os sangrentos Templários, pois cada um se defendia como podia. A proteção contra o líquido da vida se tornou uma arma branca. E assim andar passou a ser uma atividade correlata à esgrima. Que tristeza, logo eu que nem pratico o esporte mais básico que é correr, me vejo no meio do campeonato não-declarado de esgrima com guarda-chuvas.Percebi que nesta analogia cada um se defendia com o que tinha. Mulheres mais delicadas com suas armas curtas, pequenas mas de espigões afiados, enquanto engravatados ( os pretores da era guarda-chuviana) abatiam os incaltos com seus poderosos guarda-chuvas negros, amplos e rombudos, tudo do alto da sua impermeável supremacia. O que fiz é meio óbvio, tentei repousar meus olhos na lei, mas ali percebi que estes são seres inexistentes no mundo dos cabos em jota. Eles apenas tomam o lugar de platéia, uma vez que não utilizam o aparato. As crianças, como em qualquer guerra, se agarravam às saias de suas nobres e precisas ( com as pontas dos guarda-chuvas) mães. Animais nos olhavam com terror. Somos estranhos mesmo, não?
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