quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Como se despedir.

Todo mundo sabe a importância de ser educado. Para isso, é preciso uma boa dose de cortesia, algum conhecimento prático e talvez um bocado de eufemismos. Mas é fato também que passamos boa parte da juventude preocupados com os inícios. Tudo na vida jovem é início e aos poucos precisamos encarar que o "oi" é super-valorizado perto do "tchau" "até logo " e o "adeus".

Eu me considero jovem demais para dar "adeus" para algumas coisas, mas como recentemente entrei nos 27 anos, eu começo a admitir que inegavelmente todos temos uma capacidade para os "adeus".

O "adeus" é dolorido porque todos gostamos de ter controle sobre as coisas. Pessoas expansivas como eu são desligadas, mas sempre estão "pairando" com sua atenção sobre muitos lugares e pessoas. Quando uma porta bate, não nos preocupamos, porque toda ação tem uma reação, e quanto mais forte algo se fecha, mais rápido há de se abrir. Dói demais ver uma porta fechada, seja ela no campo emotivo ou no profissional. Graças ao bom Deus, poucas portas familiares me foram fechadas até agora, e acho que há um senso de justiça nisso, dada minha relativa inépcia em me desligar por completo daqueles que me fazem mal. Mesmo que eu patrocine o combustível daquilo que me faz mal.

O ano chega ao fim, e eu sempre analiso aquilo que veio, que cresceu e aquilo que se vai. Não sei porque, penso em uma sina engraçada, onde o ano novo chega e não me vejo assentado. Se assentar é paz, é tranquilidade e estabilidade, mas é um "adeus" para uma série de possibilidades. Aves em um ninho podem ter segurança eterna, mas só Deus sabe como deve ser complicado enferrujar as asas e não poder sair de seu abrigo, mesmo se uma fagulha lançada pelo vento atear fogo na tão amada morada.

Não entendo de religião, mas dou um chute semi-calculado de que o budismo fala algo sobre o desprendimento. A ficcção de George Lucas brinca com isso ao criar os licensiados Jedi. É preciso se desprender das coisas para que elas sigam seu rumo natural. E isso significa tomar o seu próprio rumo natural. Assim sendo, acho que o "Adeus" pode ser uma força poderosa em nossa vida, mas ela demora para ser aperfeiçoada até ser usada com sinceridade.

Gente, "Adeus" é deixar alguém seguir pela luz divina. É permitir que todos os dados sejam rolados para ela daquele ponto em diante e não torcer nem a favor ou contra. A analogia que faço encontra êxito no futebol: quem abandona o futebol não sabe mais quem joga. Não sabe quem está ganhando. Não acompanha tabela. E não chora nem comemora em excesso com os resultados que lhe chegam aos ouvidos.

Preciso aprender isso. 2008 é um ano par. Tem quem diga que são mais tranquilos, acho que pela exatidão do par em si, que não pede nada para se equilibrar. Muito se pediu de mim em 2007 e eu aceitei ( não de bom grado) oferecer o que me apareceu. Engraçado é que tive de dar até mesmo os tais "Adeus", para uma boa parte de amigos e amores. Não sou bom nisso, nesse negócio de entregar os pontos. Sou ótimo em aceitar uma derrota com xingamentos e promessas de revanche, mas não sei como entregar os livros e fechar a banca para falência.

Assim sendo, gostaria de inverter o pensamento que todos têm sobre o ano novo. Todos são especialistas nos "ois" e introduções. O ano novo é a festa da renovação, mas eu digo que minha reflexão à beira da praia é que não existe muito espaço em nossa linha de existência. É preciso "descongestionar" a mente. O corpo. O coração. Só assim temos como receber com luxo e presteza o futuro que nos traz coisas boas e nos tornamos capazes de segurar aquilo que nos interessa.

Por isso mesmo, recomendo a você, leitor(a), que treine e pratique um pouco o "adeus". Dê "adeus" para o futuro de cabelos desbotados que não o interessa. E isso significa abandonar até mesmo aquilo ou aqueles que o abandonaram. Corte o fio de energia mental que o prende a essas coisas. Porque este tipo de energia emite uma fumaça de frustração muito ardilosa.

Antes de abraçar à luz dos fogos, abra os braços à sombra das águas que levam. Deixe isso acontecer. Escolha, embrulhe e coloque pensamentos e relações variadas para navegarem. Deixem elas chegarem a outros portos, como novidades para o ano novo alheio. Só assim você entra no rodízio e alguém te manda oportunidades e histórias novas, como bons livros que têm o privilégio de conhecer mais de um par de olhos ávidos.

Faça isso. Caso contrário, as águas da mudança param, os fogos da novidade chegam, evaporam o que deveria levar o que entulha sua mente e , invariavelmente, essa lama de "paturo" ou "fassado" vai manchar até a mais alva das roupas de reveillon.

Feliz ano novo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Festa

" Seu nascimento é motivo de comemoração. Por isso mesmo, te dou este jogo do mico. Olha, já fica para aniversário e natal--assim disse a madrinha. Os pais acompanharam a onda, e muito se lutou para tentar mostrar que se veio a terra não por bônus natalino. O tempo passa e ele guarda na memória a única festa de aniversário que teve na infância. Seis anos. E nunca mais. Aos dezoito tentou retomar a tradição. Poucos comparecem, um punhado. Um escândalo montado pelas primeiras intrigas sociais na vida de todos aqueles acabam com sua tentativa de existir no dia de seu nascimento. O primeiro porre de dar dó toma o lugar. Dois amigos o carregam. O estorvo fica bem retratado. A teimosia toma conta, o cenário foi modificado, uma cidade com muitos para serem convidados. Já não conta mais com a amizade, mas com a estatística. Alguém aparecerá. A pequena ambição de meia dúzia de convidados é compatível com o que ele pode pedir. Sem presentes. Sem ligações. Ele se engana. Júpiter não deve ser um bom planeta para seu signo--ele sofre um embaraço por nascer. Novamente. Quase duas horas sozinho na mesa. O garçom e o proprietário do restaurante perguntam se realmente ele chamou alguém. O sentimento já antigo e familiar em todos os seus espinhos toma conta do peito. Chorar não é mais opção para homem feito. Ou desfeito, quem saberá. Poucos e fiéis amizades aparecem, mescladas com mais dois ou três coitados que não sabiam ainda da chaga de suas festas de aniversário que são tudo, menos festas. O ano que vem será mais difícil. "Eles já perceberam como é". Sequer quis lembrar na época que tentava em outra data, achando que seu natalício era amaldiçoado pelo número 21. Pena, mas valeu a tentativa. Chega outro ano. Ele já tem orgulhos e mágoas de presentes passados. Um fantasma o assola. Pensou tenramente na idéia de admitir solitude e aproveitá-la em grande estilo, provavelmente em uma suíte de hotel, acompanhado de vinho, comida de primeira e uma mulher de aparência e preços tão proibitivos quanto o resto da conta. Pena. O mundo ainda não arranhou o suficiente a sua moral para levar o plano adiante. Ri. Foi convencido pelos outros a até mesmo ele negar seu próprio dia de felicidade. Esperemos.
Com sorte pingarão moedas de cumprimentos. Dói quando os primeiros a ligar são inimigos. Eles ligam. Talvez seja o espírito combativo. Isto afasta convidados. Mas pelo menos seleciona mais as pessoas. Até demais, será? São poucos dias. Poucas pessoas. Quem sabe, só mais alguns poucos anos pela frente?"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Quanto custa ter um nome

Há pouco tempo me mudei. Assim sendo, tive de me embrenhar por horas dentro de um cartório, matando as saudades que nunca tive do pagamento de taxas para conseguir veracidade sobre aquilo que os homens dizem no papel.

É curioso pensarmos que no cartório a palavra ainda vale alguma coisa. Ninguém se leva mais a sério (eu me incluo), mas a sociedade sempre teve mecanismos para fazer valer a palavra de alguém. Antes era o sobrenome. Depois tivemos uma semi-democratização, onde as pessoas podiam fazer valer sua palavra pela igreja. Os dois foram assassinados com nicknames de web e programas dominicais, sobrando o cartório. Assim sendo, o cartório é o lugar onde você pode pagar tudo. Do aluguel ao casamento. De certidões de óbito ao primeiro bem que você adquire, o seu nome.

Para muitos, carregar o seu nome pode ser nada mais do que abrigar seu RG na carteira do bolso traseiro, mas nossa designação neste mundo pode pesar muito até mesmo para calças de cifras proibitivas.

Nosso nome é como a água da vida social, vital para nossa subsistência. Sem ele nos tornamos um homo sapiens sem tacape, e é nisso que eu acredito. Só que um nome sem história também vale tanto quanto uma placa de trânsito ao contrário, ou dinheiro que não está mais vigente.

O nome é só o arcabolso que vai abrigar tudo que conseguirmos colocar dentro dele. Demora muito conseguir algo que preste, mais ainda retirar o que não ajuda a manter o brilho dele.

Ando pensando nisso constantemente. Não pelos outros, não por filosofia, mas porque é minha responsabilidade escrever com atos e palavras e minha biografia. Muitas vezes nos emocionamos ao ver um capítulo crítico de novela, porque isso é intimamente relacionado com a nossa própria vida. É preciso ter estômago para guinar sua história de vida. Isto acontece porque de forma harmoniosa, quando nos ferramos, principalmente no ambiente de trabalho, alguém se dá bem. E ninguém vai apoiá-lo a sacudir a poeira e esticar as rédeas, existentes nos modelos de 1, 2, 5, 10, 20, 50 e, raramente 100 reais.

Quem me conhece sabe que as grades, no sentido amplo da palavra, não me caem bem. Sou capaz de arrancar um braço para seguir meu caminho por livre opção, o que é um traço pouco admirável àqueles que adoram a idéia de um ser dependente. Minha resposta está dentro do que todos que não nos querem dizem: ninguém é insubstituível. É, ninguém é, porque só é insubstituível quando alguém realmente se importa e se congratula por ter cruzado o seu caminho.

É hora de pensar profundamente na sua vida. Com certeza existem opções pouco louváveis no início, mas é verdade que muitos atos de grandeza só foram possíveis porque foram praticados por gente capaz de descer dois degraus e se sujar na lama das opções que envolvem riscos, uma lama gelada que afasta os mais desprovidos de proteção espiritual.

A mudança me cutuca. E pode ser que ela venha para o bem, mesmo que me despeje problemas por um tempo. Analisando friamente, pode ser uma boa saída, uma economia para não perder os prováveis 50 reais que alguém um dia pagou para eu carregar letrinhas no campo principal do meu RG.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Existe VIDA em São Paulo

Já escrevi muitas linhas tentando decifrar a cidade de São Paulo. Em geral, como as pessoas me dizem, escrevo textos pessimistas, mas a verdade é que só descrevo como esta zona de asfalto e concreto afeta os que aqui vivem. Acho que , por contrariedade divina, tenho de dar o meu braço a torcer e contar algo muito diferente do egoísmo e individualismo paulistano.

Me mudei recentemente, agora me acostumando com a idéia de ter um canto todinho meu. Que coisa mais sertaneja, gente. Mas Sérgio Reis tem lá sua sabedoria. Não tenho uma rede preguiçosa para deitar, mas já convivo com a sinfonia dos pardais pela manhã. É uma nova casa, uma nova fase e, pelo jeito, novas lições que eu já havia rezado demais para que viessem a mim.

Logo que me mudei--minto--antes mesmo disso, conheci uma figura chamada Dona Idel. Uma senhora que beira lá os seus 40 anos, com uma horda de crianças à sua volta--todos seus filhos--Dona Idel é uma pessoa de fala simples e prática. Acho que em outros tempos dona Idel deva ter conquistado o papo de homens em outros assuntos que não questões imobiliárias e condominiais. O batom vermelho gritante tenta indiciar isso. Eu a conheci como um novo condômino, já ressabiado ( e calejado) pelo pé no saco que vira regra para todos que trabalham como pessoal do condomínio.

Mas pelo jeito eu estava errado. Logo no começo, ao começar minha mudança, uma encomenda foi entregue fora do horário previsto e, para minha surpresa, tudo deu certo. A amiga que se comprometeu a receber--coitada--também não foi avisada pela empresa que realizaria a entrega. E assim uma cama ( dívida de 2 meses) foi largada a sua própria sorte. Mas Dona Idel estava lá. Ela, sem motivo algum , recebeu a encomenda, abriu meu apartamento ( eu já estava ciente de que ela tinha minhas chaves, resquício ainda da época em que o apê estava vago e ela abria para visitação) e a cama foi posta no quarto. Instalada.

Dois dias depois o meu carreto realiza o malabarismo de levar o fogão e geladeira, abandonados em exílio por um ano e pouco. Dias depois converso com Dona Idel, agora como condômino. Muito por telefone, eu a avisava sobre possíveis entregas, e ela se demonstrou muito solícita. Já ciente da regra paulistana, imaginei quanto aquilo iria me custar. Normal. A gente espera isso de gente cinza.

Comecei a coçar minha cabeça, pois na sequência minha máquina de lavar chegou. Outra prova, outra entrega. E Dona Idel aparece para salvar o dia. Além de receber a máquina, manda o homem tirá-la da embalagem e instalá-la, para pronto funcionamento. Gente, nada disso estava combinado. A mulher me fez isso de bom-grado.

Não sei vocês, mas ali comecei a desconfiar. Minha patota e eu tentamos achar uma saída irreverente, teorizando que talvez esta seja a fofoqueira de plantão, mas o que se percebeu é que esta heroína dona de um time de basquete de filhos é uma pessoa diferente do resto da cidade.

E a cidade continuava a provar por "a+b" que isto era uma verdade. Não era feriado nacional. Não era época de pagamento de pecados. Não. Era só a Dona Idel fazendo o que ela faz.

Perguntei ao corretor se ela era algum tipo de empregado do prédio, que não passa dos 5 andares. A resposta foi " ela só é zeladora". Achei curioso, porque meu prédio não possui guarita ou portão automático. Ela é condômina e zeladora. Estranho. Mas um estranho bom.

O capítulo final é que deixa qualquer um ( com um mínimo de coração) embasbacado. Cheguei ontem em casa cansado, ainda descrente da imensidão de coisinhas para resolver. Sem chuveiro. Sem ferro/ tábua de passar roupa. Sem bujão de gás.

Entrei ainda pensando na vida, quando vejo uma outra encomenda recebida por Dona Idel. Não acreditei. A mulher era muito gente boa! Mas não. Eu tinha que ficar quieto. Vou até a cozinha e percebo que algo estava diferente. Demorei a perceber, mas então saquei. A mulher empacotou meu lixo. A troco de quê?

Já mais do que convencido de que tinha um anjo cuidando de mim, discreto e quase que maternal, fiquei abismado ao ver que tinha um chuveiro ( e um cano, que não tinha) instalado no meu box. Isto não é Twightlight Zone gente. É vida real. Aquela senhora mandou alguém instalar um chuveiro. Que chuveiro? Eu não tinha COMPRADO sequer um.

Este tipo de coisa não tem preço. Não existe em 98% dos lugares em São Paulo. E vai de encontro a tudo que eu já concluí nesta cidade. Lamento dizer, mas muitos de meus amigos paulistanos que podem por ventura ler este post...não fariam nem 1/40 do que esta mulher fez.

Eu não sei ainda o que é. Mas acho que talvez isto seja uma burrice moral minha. Uma cegueira branca, como a de Saramago. Porque, até mesmo pessimisticamente, esta história não tem outro motivo senão BONDADE.

Bondade.

Por isso hoje eu me dei ao direito de descrever um caso da vida real, sem grandes reflexões. Porque a reflexão não deve recair sobre a história que este personagem da vida de verdade proporcionou, mas sim sobre as histórias parecidas que eu e todo mundo deveríamos protagonizar.

Think about it.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Café pequeno

"Aonde você estará aqui a cinco anos". Esta é uma das frases adoradas pelas araras imbecilizadas do RH.

Todo mundo tem que se imaginar poderoso. Claro. É a era de milhões de "Césares". Queria saber quem é que vai ser soldado. Todo mundo sabe que a maioria é peão, mas o complicado é negar a situação atual que cada um vive. Não tem problema nenhum você começar pequeno. Menos ainda se você permanecer assim por mais algum tempo. Complicado é você chegar aos 70 e continuar negando que é zé. Para deixar de ser zé, é preciso admitir que se é zé.

Oi gente, eu sou Andr...zé.

Quando comecei a história de publicidade me imaginei com facilidade para ganhar dinheiro. Acho que, com as idéias que eu tinha, não seria difícil mesmo. Mas o problema é que para chegar ao ponto de poder mostrar e aprovar uma idéia, você tem que afogar muitas partes de seu gênio criativo. Você aprende que existe uma diferença entre o ótimo , o aceitável e o aprovável.

O último tipo é que mata qualquer idéia. Você aprende porque o arroz e feijão é o prato da massa. O óbvio é o seguro, e quando você trabalha em uma agência pequena, isso é o que manda. Depois de ousar e perder este tempo para retrabalhar até as altas, você inconscientemente cria um "cala a boca" para você mesmo, à procura de algo que entregue o pedido e não te encha o saco amanhã.

Cruzei recentemente com um ex-colega da primeira agência de publicidade em que criei, uma daquela "júniors". Todos já me alardearam que ele anda muito bem, recebendo miséria mas trabalhando em uma graaande agência.

A matemática é feita na hora: Eu escolhi ganhar algum $ ( algum, não muito, tanto que não tenho independência financeira) e ele, o ego. É como ser um mendigo, trabalhando como roadie do Mick Jagger, enquanto outro é gerente da barraca de cachorro-quente.

No final, tudo se resume a como cada um decidiu dar importância para o que se vê.

Ser "café pequeno" não é problema só na publicidade. Quem não prestou jornalismo e já saiu se imaginando cobrindo o último escândalo em Brasília, ou prestou Direito e se imaginou juiz do tribunal de justiça....até os nutricionistas e botânicos devem se imaginar longe quando começam.

Mas ninguém lembra que vivemos a era da concorrência, onde até para cagar tem alguém que faz isso com menos esforço e gasta menos papel e água na descarga. Todo mundo ganha mal, o mundo anuncia cada vez mais opções de gastos, e eu sei lá onde isso acaba. Alguns se matarão no caminho, outros vão viver no meio disso e outros simplesmente decidem tirar a gravata, acender um baseado e vender côco na praia. Escolha o seu rumo com coragem, não com um Ecosport na garagem.

Alguns já me ouviram falar de algo que achei fascinante: "você quer o que para sua vida? ser rabo de baleia ou cabeça de sardinha?"

Eu escolhi a sardinha. Gosto de ter relêvância no rumo da carruagem. Gosto mesmo. Prefiro acertar um gol de trivela ( ou no mínimo ter a chance para tal) na segunda divisão do que ser o "esquenta banco" da seleção brasileira. Tem gente que se satisfaz, trocando o pinto ou os seios pelo nome do lugar onde trabalha, e não compreende que isso só alcança um valor real quando existe de fato.

Quem trabalha de forma plena em um lugar grande está nele. O resto, amigão...é como fã do KLB no alambrado. Dorme na rua, em frente ao hotel. E se der sorte ( ou algo mais), consegue falar com o bam bam bam. Vejo grandes publicitários reagindo contra a "idolatração" ou "mitificação" dos grandes nomes da publicidade, mas é fato que algo ele terá de ganhar depois de anos dormindo mal. E eu não estou falando de três ex-esposas, 4 filhos desconhecidos e uma úlcera. O ego é uma pomada milagrosa para essa gente sofrida.

Tento me manter com a minha "egozite" sob controle. Até mesmo porque preciso admitir que sou zé. Sim, eu sou zé. Ainda. Não vou conquistar o mundo, é uma pena. Por isso eu ainda jogo War ( xingando) e começo a traçar coisas mais factíveis. Talvez consiga avançar e fazer o lugar onde trabalho crescer, criar um César e esperar alguma recompensa. Talvez eu simplesmente resuma a equação da vida a "quanto se ganha" e congele de vez alguns valores que fazem alguns de meu círculo rirem por dentro, até que a idade e a distância de riqueza os permita rir largamente com um copo de uísque.

Este texto foi só uma olhada para fora da canoa. Eu sei que muitos estão na mesma que eu. Sei que alguns decidiram ir para o "rabo de baleia", ganhando um crachá número 34560-B e batalhando para que algo aconteça e ele ganhe uma baia com mais 10 centímetros de espaço.

Vários "zés" e "mariazinhas" no rio. Vamos cantar um hino alegre e pedir a favorita, exclusiva de quem não conquista nem a Dudinka:

"Um cafézinho curto, sem açúcar, por favor"

Pagar no caixa, obrigado.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Quer um amor? É com ou sem molho, não tem jeito.

Feriado. O feriado isolado, aquele que fez meu chefe achar que pode me fazer me sentir mal por ser um dia inútil. Ok, eu amo a agência onde trabalho, isso é fato, mas hoje é dia da consciência negra. Na rotina da agência, beiramos à inconsciência generalizada e cores em geral se resumem a um assunto de relevância zero para redatores. Ô gente, vamos pensar.

Mas o texto de hoje nasceu a partir de uma prática comum ( e indiscreta) da minha parte. Gosto de ver como o amor se manifesta nas outras pessoas, é uma curiosidade, até mesmo uma forma de relativizar as minhas banalidades ou extravagâncias no assunto.

Eis que desta vez não consegui perdoar. Encontrei em um orkut-tabela "amigo da amiga do amigo da amiga" uma pérola.

E então fiquei muito tentado a deixar o Ph de minha língua cair e deixar meu parecer. Um cara extremamente bem aparentado, claro. Daí que vem o título do texto, porque sei lá, acho que a minha espécie ( homem) é um pouco pobre mesmo de versatilidade. Eu me incluo. É difícil encontrarmos um equilíbrio entre o cérebro e o corpo. Talvez haja uma teoria de que abdominais sarados sejam em parte desenvolvidos com massa cinzenta, trazendo um dilema terrível à tona. Assim sendo, deixo o testimonial do rapaz ( que não irei identificar aqui) para averiguação. Pensem meninas! Pensem. Um dia os cabelos ( e não só eles, que lixo) caem, e até o crocodilo dundee perde seu abdominal sarado. Reflito no meu caso com relação às mulheres ( meu prato único e favorito nesta história toda).
É aplicável...

Dou ao testimonial o título de " amor, goze em silêncio, por favor"...

"R.: Minha Namorada. Minha Amiga. Meu Colo. Minha Força. Minha Metade. Meu SONHO !Meu Amor , desde quando nos conhecemos de pouquinho em pouquinho sua pessoa foi me conquistando e acabou Tomando por inteiro o que eu achava que nunca mais ia acontecer .. Ter tamanho carinho por Vc dentro do meu Coraçao ! Hoje posso dizer que alem da força que vc me da o Carinho , cuidado , respeito , Amor e a certeza , Mostra o quanto é possivel Te amar .. TE AMAR DEMAIS ! Ma ... nunca quero ficar sem Vc ...quero passar todos os momentos da minha vida com vc e se nao estiver ...Garanto que no meu pensamento vc estara ..nos tristes , Felizes ..Difíceis quais quer que seja ..isso por que eu REALMENTE TE AMO !!! Tomo todo o cuidado para te fazer feliz .. espero que estas poucas palavras Tirem de vc o mais belo sorrizo e sentimento de Carinho .. MA ..EU TE AMO !!! Vc toma conta do meu Coraçao ..sou Apaixonado dia apos dia ! Um Grande Beijo ... Minha Maravilhosa ..meu maior presente .. MEP MEP ! MIMIMI ! Hu !"

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Hercúleos esforços em prol do nada

Ao encontrarmos amigos a grande pergunta é "o que tem feito", e ela é nada mais do que uma atualização da jornada daqueles que gostamos. É um instinto. Mesmo feita por inimigos, a pergunta reverbera por toda nossa agenda, nossos compromissos e projetos aos quais damos ou não importância. Todo mundo adora perguntar um "e aí" e isso é inegável. A primeira novela nasceu de uma amizade próxima, e a cumplicidade pode trazer episódios mais emocionantes do que os capítulos finais da novela das oito.

Até aí tudo bem, mas eu não sei porque cargas d´água me cobro com relação a isso. A conclusão de projetos é algo muito menos atraente aos olhos dos outros do que o anúncio de um novo, mas isto só acontece quando pegamos fama por ser uma pessoa que faz acontecer. A fama é o de menos, pouco me importo com isso, até mesmo porque já carreguei esta pedra nos mais diferentes formatos e pesos, da mais otimista até a ofensiva. Fama é algo que te dão e ponto. Mas a sua auto-imagem, ou melhor, a minha, é coisa séria.

Quantas noites ou crises azia tenho pelos meus projetos. O relógio é um cão infiel com doze números e a verdade é que quase nada é passível de realização sem o apoio de alguém. Mesmo que seja para levantar uma bandeirinha ou acenar levemente com a cabeça. Precisamos do apoio dos outros, e convenhamos que novela alheia não é pauta de suma importância para qualquer telespectador. Então eu passo a quebrar a cabeça em como fazer acontecer aquilo que persigo. Sozinho. Não é drama, só o "Sampa way of life". Uma multidão de problemas engarrafada em ruas e apinhando estações de trem. Nada mais justo, dada a solução financeira que a cidade oferece.

Mas ultimamente andei pensando em frases que meu pai anota desde os 20 anos. Ele é um leitor daqueles desinteressadamente cultos, uma daquelas pessoas que nos cativam pela naturalidade do conhecimento que é adquirido pelo tesão próprio. Nunca foi a festas cult ou fez considerações em congressos, e discursa relutantemente uma vez ao ano na sua comunidade cívica.

As máximas anotadas em um caderno são um grande manual sobre a boa vida, frases curtas e grossas--mas profundas--que colocam em cheque trezentas vezes minhas reflexões deste blog. Talvez um dia ele me empreste o caderninho de folhas amareladas aí sim me dando por feliz.

A frase que bate com este texto é a seguinte: " O silêncio é a qualidade da palavra" ou algo assim.

Sou um tagarela nato, então imaginem o impacto atômico que isso causou na minha maneira de ser. Mas depois de discutir com meu pai ele me explicou que a frase vai mais além, até mesmo do ato de falar. Disse que é preciso um esforço dobrado para apenas "ficar" e esperar o que é seu por direito vir até você. Imaginem se o condutor da balsa ou o capitão de um navio não soubesse o que é isso, sempre acelerando com os motores. Na hora de aportar, um desastre seria inevitável. Eu começo a entender que o ato de "recolher os remos" e confiar no que foi feito é coisa tão valiosa quanto as remadas fortes que damos em direção ao que desejamos.

Desejo muito para a minha vida. Sou um filho da puta para muitos por isso, dada uma série de ambições que muitos fracos de caráter consideram proibitiva. Não tenho a menor vergonha de dizer que me sinto preparado para um dia ser milionário. Que pretendo casar com alguém digna de livros e admiradores post mortem. Que talvez seja um baita artista cantando minhas composições, mandando à merda muita coisa que todos tem medo de sequer deixar encostar a palavra. Ambições patéticas? Me formar uma vez já foi parte da lista. Conquistar um novo vestibular também. Até mesmo cantar, aos meus 16 anos, era motivo de piada para muita gente. Acho que todo mundo tem que se dar ao direito de perseguir coisas decentes. Mas como perseguir isso da melhor maneira?

Uma amiga minha, compatível com o modo operante esdrúxulo que mantenho em minha vida, me disse uma daquelas obviedades que ganham sabedoria por serem imbuídas de uma sinceridade obscena:

"Para ganhar não tem jeito. É preciso perder, sempre"

E aí você pensa: "dã". "Dã" é o caralho. Quantas vezes eu não me peguei puto por ter de entregar algo para conquistar a mesma meia dúzia "mais" alguns gramas de realização? É de fuder. A gente sempre pensa nos ganhos de forma exponencial, enquanto pensa em frações na hora de entregar. Seja na vida profissional, no gerenciamento de tempo ou no amor, é o que fazemos inconscientemente.

Assim sendo, começo a jornada em nome do nada. O nada. A arte de analisar a hora de simplesmente "parar de remar" e esperar a jornada alcançar calmamente seu porto. É preciso. Senão, depois de alguns portos, serei só um monte de experiências amassadas.